|
Publicado em: 31/7/2009
Aluno Não Significa "Sem Luz"
por Milton L. Torres
De tantos em tantos anos alguém
desafia a sabedoria dos antigos ao promover questionáveis campanhas contra a
integridade do significado de palavras já consagradas pelo uso. Há pouco tempo,
os profissionais da área de saúde rejeitaram o termo “autópsia” sob suspeita de
que a palavra seria uma má formação, uma vez que, na opinião dos pretensos
sábios da modernidade, o vocábulo “autópsia” faria referência a um auto-exame
incompatível com a natureza do processo de dissecação de um cadáver.
Nada podia estar mais distante da
verdade. A palavra “autópsia”, de uso consagrado pelos mais respeitados médicos
gregos da antigüidade, significa “exame com os próprios olhos”. Empregada por
Galeno e Dioscórides, nos primeiros séculos da era cristã, só não foi usada
antes por Hipócrates porque este preferia não se incluir entre os anatomistas,
valorizando mais a observação do comportamento e as experiências dietéticas do
que a etiologia fundamentada na dissecação dos órgãos internos, conforme se
percebe na recente e excelente edição dos Textos hipocráticos, promovida pela
Editora Fiocruz, sob os auspícios de Henrique F. Cairus e Wilson A. Ribeiro Jr.
Além disso, mesmo que “autópsia”
significasse apenas “auto-exame”, que melhor momento teríamos para visualizar a
fragilidade do ser humano, a nossa própria debilidade, senão enquanto nos vemos
a nós mesmos refletidos na figura inerte, mas maravilhosa, de um corpo humano?
Se fosse médico, preferiria muito mais imaginar-me respeitosamente desvendando a
natureza do homem a contentar-me com o exame de um corpo coisificado.
Da mesma forma, tem circulado nos
meios cultos a infeliz idéia de que o termo “aluno” signifique “sem luz”. De
novo é necessário adentrar, com cautela, o terreno da antigüidade greco-romana
que, invariavelmente, se prova mais competente e digno de crédito do que a falsa
erudição que se exibe em muitos círculos.
A palavra “aluno” vem do verbo
latino “alo”, que significa “nutrir”. O termo tem valor de particípio e
significa, simplesmente, “aquele que foi nutrido”. Etimologicamente, a palavra
se liga ao substantivo “alma”, que significa “nutriz”, de acordo com a idéia
comum de que a alma alimenta o corpo. É, por isso, que a universidade é chamada,
com freqüência, de alma mater, isto é, “a mãe que nutre”.
A falsa etimologia que analisa a
palavra “aluno” como composta de “a” (prefixo de negação) e “lux” (“luz”) não
leva em consideração que o prefixo de negação “a”, comumente chamado de “alfa
privativo”, só ocorre em palavras de origem grega. Portanto, a explicação não
passa de um hibridismo lamentavelmente inculto.
Na época romana, o alumnus era uma
criança (principalmente do sexo feminino) que, abandonada pela própria família,
recebia os cuidados de uma família que se dispunha a recebê-la em seu seio.
Porém, muitos meninos abandonados tornavam-se meros servos ou gladiadores. Ser
um alumnus não era, por isso, o mesmo que ser um filho adotivo, pois o status
daquele era o de semi-adoção, conforme fica claro no tratamento dado a esse
fenômeno social no livro The kindness of strangers: the abandonment of children
in Western Europe from late antiquity to the Renaissance, de John Boswell.
Apesar da perversa situação
demonstrada, ali, por Boswell, pode-se dizer que a adoção do termo “aluno” no
âmbito educacional teve uma intenção nobre. O professor deveria ver o aluno com
os olhos carinhosos do mentor que havia sido colocado in loco parentis, isto é,
“no lugar do pai”.
Não nos deveria surpreender,
contudo, essa ligação entre o contexto educacional com uma situação social
desfavorável, afinal de contas, a própria palavra “pedagogo” indicava status
servil na antigüidade, sendo o antigo pedagogo meramente o escravo que
acompanhava o estudante à escola.
Bem, meu objetivo, aqui, é simples
e categoricamente afirmar que a palavra “aluno” não significa “sem luz” e que
abandoná-la por tal motivo pode apenas indicar que os modismos que procuram
destruir as convicções pedagógicas daqueles que são acusados de serem educadores
“tradicionais” remetem apenas a uma nova modalidade de educador, leviano e
falaz, mas destituído da substância da cultura.
Autor: Milton Torres é PhD em Arqueologia Clássica pela Universidade do Texas,
Pós-doutorando em Estudos Literários pela UFMG e Editor da revista Formadores:
Vivências e Estudos
|