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Publicado em: 11/6/2010
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"Semeador de Estrelas"
Fernando de Almeida Silva
Editor
pprfernando@yahoo.com.br
Em uma praça da velha cidade de Kaunas, na
Lituânia, há uma estátua de bronze, herança dos tempos da dominação soviética
sobre o país (1795, 1920, 1940, 1944-1991), que chama a atenção de quem passa. É
a estátua de um homem que, durante a noite, “semeia estrelas”.
Desde que foi esculpida e colocada lá, ficou
conhecida como a estátua do “Semeador de Estrelas”.
A cidade de Kaunas, capital da Lituânia, em 1920
(atualmente é Vilnius), foi fundada, provavelmente, no século XIII. Durante sua
agitada história, reduziram-na a cinzas diversas vezes e das cinzas renasceu,
tendo sido dominada sucessivamente pela Polônia, Alemanha e Rússia. Nos anos
1915-1918 e 1941-1944, esteve ocupada pelos exércitos alemães. Está situada na
confluência do rio Vilija com o Niemen, no Báltico, Europa ocidental.
Durante o dia a estátua não chama a atenção de
ninguém, sejam moradores locais, de outras cidades e, até mesmo, turistas que
todos os dias chegam à Lituânia e visitam Kaunas. Mas, à noite e com o facho de
luz sobre ela, é possível ver as estrelas cintilando e flutuando no espaço, à
medida que nos dá a impressão de que o homem semeia, com a mão direita, enquanto
que, com a esquerda, segura o embornal onde, presume-se, contém outras estrelas.
As estrelas se projetam logo atrás dele, a partir
do seu lado direito, criando um mundo de sonhos e ilusão, como se, num passe de
mágica, saíssem do embornal ou caíssem do Céu, diante de nossos olhos.
Nunca pensei que alguém pudesse semear estrelas,
ainda mais em praça pública. Mas, o homem da estátua de Kaunas, semeia. Basta a
noite chegar.
Devido à aparência de “estátua velha”, por ser de
bronze e oxidada pela ação do tempo, passa praticamente incógnita durante o dia,
como qualquer outra estátua da praça. Mas, assim que a noite chega e a luz é
acesa, acontece o milagre da transformação e o encanto da ilusão, que fascina e
provoca suspiros de admiração nos visitantes, como se ganhasse vida e os
convidasse para, com sua magia encantadora, semear estrelas também. E, então, se
transforma em ponto de encontro e referência para quem passa, justificando seu
título, cujo autor ninguém sabe. É a escuridão, com um único facho de luz sobre
ela, que parece lhe dar vida à noite e que a tirou do anonimato.
Olhando atentamente para a estátua, conclui-se
que, também, possuímos estrelas e podemos semeá-las nas praças da vida. Basta
querer e esperar a noite chegar. São estrelas diferentes em suas diferentes
fases de brilho e intensidade, tal qual a passagem do tempo, pela contagem dos
anos. Mas, o mais importante, é saber que temos estrelas e podemos semeá-las no
coração de todos, para fazer brilhar as noites escuras de suas vidas. É possível
saber que, realmente, temos estrelas que brilham e flutuam no espaço das horas,
dependendo, apenas, da bondade do coração e da boa vontade de cada um, em querer
semeá-las e fazê-las brilhar, em benefício do próximo.
No livro “O Pequeno Príncipe”, a obra mais
conhecida e famosa de Antoine de Saint-Exupéry, conhecido mundialmente como
Saint-Exupéry ou, apenas, Exupéry, lemos: “as pessoas tem estrelas que não são
as mesmas. Para uns, que viajem, as estrelas são guias. Para outros, elas não
passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu
negociante, era ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás
estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite (porque
habitarei numa delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te
rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por
me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei
lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirás, às vezes, a janela à toa, por
gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as
estrelas, elas sempre me fazem rir!”.
As estrelas que brilham em nossa vida são como
estrelas que brilham no Céu todas as noites. Elas estão lá, vigiando e
iluminando nosso caminho. São estrelas que os poetas e enamorados contemplam,
sob o esplêndido clarão do luar, embalados pelos suspiros de ternura e
compaixão, irradiando sentimentos de amor, ilusões imorredouras e aspirações,
que dormem no cantinho silencioso do coração.
Se cada pessoa soubesse que pode semear estrelas,
encontraria o sentido da vida em tudo de bom que faz, mesmo diante de uma
estátua velha e oxidada pelo tempo, exposta em praça pública, cuja metáfora da
vida ela representa, com o personagem semeando estrelas. Então, poderia olhar
para o Céu todas as noites, procurar o rosto de Deus no Firmamento e sorrir de
contentamento a cada instante.
Quando alguém olhar para o Céu e sentir o amor
inquietar seu coração, olhe bem para as incontáveis estrelas que Deus semeou no
Universo. Depois, volte seu olhar para o rosto triste e sofrido do semelhante a
seu lado, e seja para ele um facho de luz, semelhante ao da estátua de Kaunas, a
fim de semear estrelas de esperanças e conforto em seu coração, compadecendo-se
dos que amaram e deixaram de amar, tanto as coisas belas da vida, como os amores
não correspondidos, e cuja paixão e amor ganharam nova expressão, pela magia das
estátuas e o cintilar das estrelas.
E, enfim, quando estiver viajando pelas avenidas
serenas das recordações e parar nas praças mágicas dos sonhos e encantos que a
vida lhe deu, embale seus sentimentos com a canção alegre da esperança. Visite o
âmago supremo de sua alma em êxtase. Volte seus pensamentos para o “Semeador de
Estrelas” de Kaunas, e verá que a felicidade existe, mesmo sob a ilusão de um
facho de luz sobre uma estátua velha e oxidada pelo tempo.
Então, descobrirá, para seu deleite, a magia de
poder contemplar as estrelas que são semeadas em seu coração, e que brilham,
sorrindo para você, enquanto a noite soluça e chora lágrimas de orvalho, que
caem pelos caminhos, nas primeiras horas do amanhecer.
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